Chegou na Netflix este mês de março a série "Adolescência", com uma proposta analítica muito interessante sobre as relações masculinas através das idades. Embora o nome traga a ideia de uma percepção sobre um recorte de idade, a produção é muito mais sobre a masculinidade e suas fragilidades, do que sobre aquela fase turbulenta que vivemos entre os 12 e 18 anos.

Ambientada no Reino Unido, a série conta a história da família Miller, que tem sua realidade virada de cabeça para baixo quando o filho mais novo, Jamie, de 13 anos, é acusado de um homicídio violento. Os desdobramentos do primeiro capítulo são em cima, justamente, deste momento da polícia invadindo a casa deles e levando o garoto para a delegacia.
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Gravada num formato de plano-sequência, quando há uma única continuidade entre as cenas, "Adolescência" vai nos apresentando os personagens aos poucos e explorando muito bem cada um deles. O investigador, o pai, o garoto, as instâncias da delegacia. Tudo tem o seu momento de explanação, o que constrói muitíssimo bem aquele cenário de tensão onde o espectador que descobrir se o garoto é culpado ou não.
A nossa percepção, ainda que inicial, é que se trata de uma série investigativa e que o menino está sofrendo um mal-entendido. No entanto, ao final do primeiro episódio (são apenas quatro ao todo), vemos que o rumo daquela produção é completamente diferente do esperado. Primeiro que não é sobre adolescência. Segundo que pouco importa a descoberta de quem é o culpado.
No final das contas, a motivação do crime é que se torna muito mais interessante e exploratória. Entender todas as nuances que levaram os atos até aquele ponto e quais foram as origens daquilo.
Se você se importa com o mínimo spoiler, não avance no texto!

Entender as motivações de um jovem de 13 anos (uma criança, talvez) para matar uma colega de sala é algo que foge do padrão comum. No Reino Unido, com essa idade, você já pode ser preso e ter uma pena bem ampla. A responsabilização pelos atos já existe neste ponto. Mas a série também não é sobre isso.
É quando chegamos no segundo capítulo, na descoberta de termos como “incel”, que vemos o rumo que estamos tomando. Jamie parece ser um garoto bem padrão, tímido e com poucas amizades. A família é razoavelmente estruturada, sem abusos. Então o que o levou a desprezar tanto as mulheres? É neste ponto que vamos entendendo as construções.

O pai, ainda que amoroso, presente e participativo, tem um descontrole emocional grande, que por vezes se reverte em ações físicas. Vemos isso claramente no discurso de Jamie sobre o pai não ser violento, nunca o ter batido, mas ter quebrado um galpão, certa vez, num momento de fúria.
O excesso de proteção de Jamie com o pai é visto não apenas quando ele o escolhe como responsável legal, mas quando ele faz questão, durante a sessão de terapia, de sinalizar que nada daquilo é culpa do pai dele. Há ali uma duplicidade. Não apenas ele não tem a percepção da influência do próprio pai na sua vida, como a reação de defesa inata, a todo momento.
Outro detalhe importante é o quanto ele tenta se impor, constantemente, perante a terapeuta. Tenta manipular através de falas específicas, tom de voz ameaçador. Depois, quando isso não surte efeito, ele parte para a violência. Faz a tentativa de mostrar força física, mesmo ele sendo um jovem franzino de 13 anos. É perceptível o quanto que ele se curva para os homens, respeita seus postos, mesmo quando eles estão impondo coisas que ele não quer fazer, mas despreza qualquer mulher em qualquer circunstância.
Mas como Jamie, aos 13 anos, chegou neste ponto? "Adolescência" traça justamente esse caminho. Todos os detalhes que vão, aos poucos, levando à construção do machismo, da masculinidade frágil e suas reais consequências na sociedade que constantemente despreza mulheres, de diferentes formas.
Uma série bem escrita, bem dirigida, bem atuada. Uma combinação perfeita e minuciosa que traz um resultado à altura da temática importante que debate. Merece toda a atenção que vem recebendo!
Assista ao trailer da série 'Adolescência':

Marcela Gelinski
Marcela Gelinski
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